top of page

Novembro, 2018

 

Resumo produto da relação entre o tema do Projeto Final de Mestrado "Revitalização do Barreiro Antigo. Uma estratégia inclusiva e vinculativa" com a noção de Direito à Cidade defendida por H. Lefebvre para o Seminário "Direito à cidade"

Práticas contra-hegemónicas emergentes de produção coletiva de outro espaço
(Des)marginalização do espaço público

O bairro do Barreiro Velho – Do espaço construído e do espaço vivido para o
projeto de espaço público


Entendendo o espaço como um produto social (Henri Lefebvre), parte-se nesta comunicação do bairro do Barreiro Velho para a compreensão da relação dialética entre o espaço físico e o espaço social, mais especificamente da degradação do espaço construído à segregação social e dos efeitos para a vida urbana da mercantilização do território.


Nas últimas décadas, o considerado centro histórico do Barreiro, o Barreiro Velho, entrou num
processo de declínio evidente, derivado do encerramento da atividade industrial nas imediações do bairro, onde as dinâmicas sociais e culturais que lhe correspondiam se alteraram e ditaram o início de um processo de desertificação e de degradação do construído. Este processo traduz-se, no presente, na degradação da estrutura física, percecionada por demolições e edifícios devolutos, à qual se associa alterações na estrutura social caracterizadas maioritariamente pelo surgimento de uma comunidade cigana e pelo envelhecimento da população. A nossa inquietação deriva não só do estado desvitalizado do bairro, mas também das intervenções que vêm surgindo e que têm como base o capital financeiro, cujas intervenções se desassociação do contexto social.


Propõe-se um projeto arquitetónico cuja intervenção seja um estímulo para a revitalização do bairro e do seu contexto, identificando dinâmicas socio espaciais que têm presente o sistema de
significações dos habitantes do local. Entende-se o espaço público como elemento físico vinculador do bairro fragmentado, lugar em que os diferentes hábitos e apropriações entram em conflito. Neste sentido e segundo a relação espaço construído/espaço vivido, a compreensão das apropriações do espaço público, e a falta das mesmas, assim como do conflito que marca a fragmentação social, traduz-se como necessidade para o projeto a ideia de espaço público como lugar de reunião, discussão e participação política. A esta ideia de espaço público associa-se a curiosidade intelectual e a possibilidade de aquisição de conhecimento através da leitura como catalisador de novos encontros e discussões e capaz de diluir fronteira. Define-se assim, a biblioteca como enunciado programático, cuja exploração estimula quer o desenvolvimento individual do sujeito como o encontro entre indivíduos de diferentes comunidades (população residente e exterior ao bairro).


Considerando a escala e dinâmica do bairro, entende-se que o projeto de um único edifício que
circunscreve o uso da biblioteca não sustenta o contexto social, cultural e físico, e nesse sentido a
“biblioteca” foi fragmentada programaticamente em três unidades funcionais, cuja disseminação e localização em três pontos distintos do bairro se pretende catalisadora de novas atividades e
encontros. A configuração dos dispositivos arquitetónicos no sistema do bairro baseia-se na
organização em pátio e na sua particular (e diferenciada) circunscrição como elemento que relaciona a interiorização e exteriorização das propostas.


Assim, compreende-se que o desenvolvimento de diversas atividades nas três propostas pode
desencadear encontros e discussões no espaço público, recuperando o conhecimento na narrativa do bairro e estimulando o sentido de direito coletivo capaz de valorizar o sentido social, cultural, histórico e físico do bairro criando condições para que o valor de uso do espaço se sobreponha ao valor de troca.

bottom of page